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Saturday, February 27, 2010

O ROSTO COMO PROIBIÇÃO DA VIOLÊNCIA

Em um livro intitulado Éthique et infini, fruto do dialogo com Philippe Nemo, o filósofo Levinas em um momento de profunda reflexão disse: “No acesso ao rosto, há certamente também um acesso à idéia de Deus”. A partir dessa afirmação quero refletir sobre a importância desse pedaço de pele chamado rosto.

Todos nós relacionamos com o rosto do outro e com o nosso próprio rosto. O ódio, a inveja, a miséria, a violência, a ganância, o egoísmo, os horrores da guerra e a estupidez da política ofuscam essa relação, mas não a destrói, sem o rosto não há relação. O teu rosto fala comigo, através dele falo contigo. É através do rosto que sentimos a dimensão do humano e da sua igualdade. Não uma igualdade imposta pelas cartas internacionais e pelos valores atualmente vigentes, mas uma igualdade sentida.

Para Levinas, em sua obra Humanisme de l’autre homme, por exemplo, só existo plenamente como sujeito, em virtude de um outro que me protege e que eu devo proteger. Assim, cada um é, enquanto responsável pelo outro. A nossa existência ganha sentido humano através do cuidar mutuamente. Para isso, não precisamos de nenhuma norma externa, basta apenas um acontecimento: a revelação do rosto. Esse pedaço de pele é uma mina de informações. Com um pouco de cuidado e observação, pode-se ler todos os desejos e confissões guardados no íntimo do seu titular. Percebe-se, inclusive, que aquele que é considerado inimigo é, no fundo, um irmão.

Quando se olha no rosto de um homem só se vê um homem. Ou melhor, só se sente um homem, nada mais do que isso. Todos os preconceitos se apagam, a interpretação se destrói, o pensamento perde a força e a classificação se desmancha. Diante de quem olha está um rosto desnudado, isto é, desarmado, vulnerável, sem defesa, irredutível à sua aparência, despojado de suas propriedades empíricas, desenraizado e apátrida. Um rosto que só tem a oferece a sua fragilidade e clama pelo cuidado e proteção como todos os rostos do mundo.

Há no rosto uma força incomparável de intimação. O rosto manda. Ele é uma voz sutilmente silenciosa que proíbe qualquer sentimento “maligno”, ele proíbe matar. Observar as feições do rosto é ver com clareza o outro. Quando observo o rosto, ele me observa, passa a me impor e se torna um problema meu. Assim, o outro diante de mim, passa a ser o próximo, não pela minha inteligência, mas por uma solicitação vinda de um lugar sobre o qual eu não tenho controle. Esse sentimento não pode ser destruído. Foi abalado pelas guerras e atrocidades do século XX e está sendo ofuscado pela idéia do capitalismo e suas conseqüências, mas está vivo na essência do homem, e só ele é capaz de restaurar a humanidade. Os nazistas e os comunistas, através dos campos de concentração (sob tortura e abandono) e da propagação de ideologias, tentaram calar os rostos reduzindo-os a amostras ou a exemplares de uma espécie porque perturbavam seus planos, suas marchas e os sobrecarregavam brutalmente com um fardo incômodo. Ora, esse programa nazista, no fundo, provou o poder que o rosto tem de tocar o ser na sua essência.

Portanto, é no reconhecimento do outro que a existência humana começa. Reconhecimento que se dá através da observação do rosto: através desse pedaço de pele emerge, simultaneamente, a vulnerabilidade e a transcendência do ser. O rosto traz em si, simultaneamente, a possibilidade de ver o outro como aquele contra quem posso tudo e a quem devo tudo, a possibilidade de matar e de não matar. O rosto é aquilo que não se pode matar, ou pelo menos, aquilo cujo sentido consiste em dizer: “não matarás”. Assim, observar o rosto do próximo significa, no fundo, relacionar. Uma relação que proíbe qualquer tipo de violência. É o rosto, também, que torna possível e começa todo o discurso. Se ainda pretendemos conseguir e manter um mundo humano, precisamos â �œler” incessantemente o rosto do nosso semelhante. Quando dois rostos se observam mutuamente, surge uma revelação fundamental: o querer viver que, por sua vez, solicita proteção, cuidado, relacionamento, discurso e igualdade. Sem essa observação, a ação se fundamenta exclusivamente na vontade e no interesse, provocando assim, abandono e sofrimento, ausência de relacionamento e do discurso, diferença e superioridade, guerra e morte.

José João Neves Barbosa Vicente – josebvicente@bol.com.br

Filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

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