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Sunday, March 7, 2010

O ESCÂNDALO E OS VALORES MORAIS


De acordo com os ensinamentos de Montaigne (Oeuvres completes) “Aquele que fundamenta seu argumento no escândalo e na briga mostra que sua razão é fraca”. Mas, o que é o escândalo? É esta pergunta que vai guiar esta breve reflexão.
 A palavra é de origem grega,skandalon  que significa de um modo elementar, pedra que faz tropeçar. Mas, no sentido moral, como muito bem ensinou os autores Huisman e Vergeez em A composição filosófica,significa toda a ocasião de queda. Mas como é possível o escândalo? Ora, para que haja escândalo são necessários o escandalizante (ou escandaloso), o escandalizado e um valor reconhecido por ambos. É escândalo, por exemplo, alguém chamar um presidente de uma nação de “macaco”, se ambos sa bem que tal atitude reflete falta de polidez. Já uma criança de dois anos que ingenuamente repete a palavra “puta”, não é escandalosa. Além de não conhecer o teor da palavra, ela não tem a intenção de ofender alguém. Não é escândalo também, quando não se tem a mínima idéia do valor que o outro pretende rebaixar.
            Escândalo é algo que acontece, fundamentalmente, quando o agressor se esforça por destruir perante meus olhos um valor que ele conhece ser-me caro. Assim, o escândalo dá ao não-valor uma existência brutal. Assim, o escândalo é tanto mais escandaloso quanto mais rude e inesperado for o choque e quanto maior a distância entre minha esperança e minha decepção: um oficial que se mostra covarde, um sacerdote que se entrega a devassidão, um magistrado que pratica fraude são, antes de qualquer outro, escandalosos. Com efeito, o valor aqui é rebaixado por aqueles mesmos que lhe deviam ser os primeiros servidores.
No estado de espírito do espectador escandalizado há de início o espanto, mas que se acompanha de um abalo emotivo, sem o qual o escândalo não seria senão um paradoxo que nos surpreende sem entristecer-nos. Assim, o escândalo é, pois, um espanto seguido de cólera, mas não uma cólera qualquer, um simples fato afetivo. É uma cólera, de conotação ética. É uma indignação. O espectador identifica-se com o valor ético torturado publicamente pelo agressor.
Existe também, uma obscura cumplicidade entre o ator escandaloso e o espectador escandalizado. A consciência escandalizada se revolta contra o outro, é certo, mas também, um pouco, contra si mesmo, porque está perturbada, sente-se vencida pela tentação. É basta ler a  peça de Molièr em que Don Juan escandaliza o mendigo piedoso: “dar-lhe-ei um luís de ouro se você jurar. Vamos, vamos, jura um pouco!” o mendigo está certamente apegado à sua fé, que o protege do desespero. Mas tem fome, tem frio; essa moeda de ouro representa tantas coisas para ele! Don Juan percebe essa confusão, sente frágil a alma de sua vitima, goza com a idéia de perturbá-la. Se o mendigo fosse um santo, a oferta de Don Juan cairia sobre ele sem    atingi-lo. Don Juan não deixaria por isso de ser menos desprezível, mas não haveria escândalo. Ninguém consegue escandalizar um santo. Na verdade, nem o santo nem a pessoa perfeitamente imoral são acessíveis ao escândalo. o escândalo revela, portanto, simultaneamente a presença em nossas almas dos valores morais e suas fragilidades. É, pois, perfeitamente normal que os “menos virtuosos” sejam bem freqüentemente os mais fáceis de se escandalizarem.


José João Neves Barbosa Vicente – josebvicente@bol.com.br
 Filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

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