(Para Nônô, minha Mãe querida)
Mãe, quando, envergonhado, gaguejei,
Tentando explicar-te que as circunstancias
Não me deixaram comprar-te o manto purpurino,
Lembro-me de que disseste, a sorrir:
- Para quê, um manto felpudo,
Se os teus braços me eliminam o frio
Quando me envolves com toda a ternura!?...
Recordo o dia quando eu cheguei
Diante de ti, muito amargurado…
E me limpaste os olhos carinhosamente
E, de repente, em excelsas mímicas,
Em passinhos de bailarina comediante,
No palco da nossa casinha, que fizeste de boba
E em gargalhadas me tentaste adormecer.
Mas… antes que o sono me vencesse,
Naquela noite tormentosa,
Eu ouvi que os teus gemidos dolorosos;
E fiquei por saber
Se choravas em meu lugar,
Se oravas por mim a Deus –
Ali no cantinho do nosso lar.
Mesmo agora, quando os anos
Me pintaram o cabelo da cor dos lábios do mar,
Tenho imensa vontade de me tornar menino,
De reclinar ao teu regaço,
De sentir as palpitações de outrora:
Criança atrás de ninhos de pardais,
De borboletas, de lagartas, de gafanhotos…
Como gostaria de adormecer,
Embalado pela tua voz doce de mãe avòzinha,
Alheio a esse troar de canhões,
Explosões de bombas e cataclismos!
Mãe, por favor, assenta-te ao pé de mim
E deixa-me repousar a cabeça,
Deixa-me esquecer a vida e mim mesmo
E ancorar em mim
Todas as sensações de menino,
Mesmo que seja apenas por um INSTANTE!
Por Gilberto Évora
“In Epistola, 10, Nº 5, Maio/1966”
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